Archive for the 'Deontologia Médica' Category

As dores femininas

Um estudo do Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE mostrou que a dor em pacientes do sexo feminino é tida como menos genuína e a sua situação clínica considerada como menos grave e urgente do que a dos homens. Chama-se “Os enviesamentos de sexo nos julgamentos sobre dor lombálgica” e teve como objectivo identificar factores que influenciam os julgamentos de dor dos doentes. A amostra utilizada foi composta por 205 estudantes de enfermagem e os resultados mostraram que os estudantes de enfermagem do sexo masculino efectuam mais enviesamentos de sexo nos julgamentos sobre a genuinidade da dor apresentada pelo/a paciente do que as estudantes do sexo feminino. A responsável por este estudo, Sónia Bernardes, denota que “embora as mulheres reportem sentir mais dores que os homens ao longo das suas vidas, as suas dores são frequentemente desvalorizadas, sub-diagnosticadas ou sub-tratadas comparativamente com as do sexo masculino”. De acordo com a investigadora, “existem razões para crer que a discriminação da mulher com dor comparativamente com o homem não é um fenómeno universal, mas sim dependente de pistas contextuais.” 

Significa isto que temos todos de reflectir como discriminamos nós, técnicos de saúde, em função do género, mesmo com todas as boas intenções de tratamento médico, pois até no diagnóstico e na escuta activa podemos diferenciar homens e mulheres.

Função sexual e sensibilidade genital e genitoplastia na hiperplasia adrenal congénita

O Journal of Urology e uma equipa de investigadores (Crouch, Liao, Woodhouse & Conway, 2008 Feb;179(2):634-8) publicaram recentemente , no Reino Unido um estudo que incluia 38 mulheres, 28 com história de hiperplasia adrenal congénita e 10 como grupo de controlo, e analisou a função sexual e a sensibilidade genital, depois da genitoplastia feminizante, através da história médica em retrospectiva, dos regitos médicos e de um questionário estandartizado. A sensibilidade vaginal e clitoridiana foram também medidas sensorialmente.

O grupo que sofreu a genitoplastia feminizante (24 mulheres) tinha uma perturbação significativa do clítoris, comparadas com o grupo de controlo, sem que houvesse diferenças significativas no canal vaginal superior, em que a cirurgia não foi feita em nenhuma mulher da pesquisa. O limiar de sensibilidade das 4 mulheres com hipoplasia adrenal congénita, que não tinham sofrido a cirurgia feminizante, era semelhante ao grupo de controlo.  Assim, a perturbação sexual parecia mais grave nas mulheres que sofreram a genitoplastia, muito evidente nas dificuldades de penetração vaginal e na frequência de relações sexuais.

Tomar a decisão de realizar esta cirurgia nas bebés femininas deve ser cauteloso e deve informar-se bem os pais das consequências reais de permitir tal operação, pois este artigo conclui, como outros o fizeram antes, que a sensibilidade nas áreas onde a cirurgia intervém fica alterada significativamente e a função sexual alterada.

Ver revisão aqui

Novo Código à vista (II)…

Assim de corrida, Bruno, vou “auto plagiar-me” e passo para aqui só mais dois ou três pontos sobre o “sumo” da notícia.

A colagem da necessidade de alterar o CD ao aborto e à eutanásia é falsa. Na verdade ela não é recente e não se prende apenas com o aborto e a eutanásia, basta pensar na procriação medicamente assistida ou na esterilização reversível.

Definir um código de conduta médica, e justificar a sua existência, apenas como um instrumento protector do doente é demagógico. De resto, como se pode comprovar no portal da OM, o CD dos médicos portugueses está dividido em seis grandes capítulos e as suas disposições abrangem a relação do médico com o doente, com a comunidade, com os outros médicos e com terceiros.

Discutir a eutanásia por oposição aos cuidados paliativos é perverso, sobretudo quando se trata do bastonário da OM (Pedro Nunes não estava a falar em nome pessoal) e se deixam nas entrelinhas algumas insinuações pouco razoáveis, nomeadamente a ignorância dos clínicos face aos cuidados paliativos ou o primado das razões económicas na defesa da eutanásia.

Reduzir os cuidados paliativos à analgesia é errado e grave. Caso interesse, cf. WHO Definition of Palliative Care:

Palliative care is an approach that improves the quality of life of patients and their families facing the problem associated with life-threatening illness, through the prevention and relief of suffering by means of early identification and impeccable assessment and treatment of pain and other problems, physical, psychosocial and spiritual. Palliative care provides relief from pain and other distressing symptoms; affirms life and regards dying as a normal process; intends neither to hasten or postpone death; integrates the psychological and spiritual aspects of patient care; offers a support system to help patients live as actively as possible until death; offers a support system to help the family cope during the patients illness and in their own bereavement; uses a team approach to address the needs of patients and their families, including bereavement counselling, if indicated; will enhance quality of life, and may also positively influence the course of illness; is applicable early in the course of illness, in conjunction with other therapies that are intended to prolong life, such as chemotherapy or radiation therapy, and includes those investigations needed to better understand and manage distressing clinical complications.

Novo Código à vista…

O recém re-eleito Bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, deu este fim-de-semana uma entrevista à Agência Lusa, tendo-se debruçado sobre a problemática da Eutanásia. Desta entrevista ficamos a conhecer dois pormenores importantes:

1 - A Ordem está a rever o actual Código Deontológico e apresentará em breve um novo texto;

2 - O Bastonário rejeita, liminarmente, qualquer alteração do Código ou da lei no sentido de abrir a possibilidade à legalização de qualquer forma de Eutanásia;

No 1º ponto, o Bastonário reconhece que o novo texto da Deontologia médica Portuguesa deverá traduzir a modernidade da sociedade, embora admita que este “poderá dizer o mesmo”, embora “de uma forma diferente”. Não entendemos a mensagem do Bastonário, mas pelas suas palavras poder-se-á pensar que o que está a ser preparado para o Código é uma operação de estética, mantendo a condenação da prática da IVG a todos os médicos. Se assim o é, qual o sentido desta revisão do texto? Até quando vamos continuar a perpetuar na classe médica o conservadorismo e a alienação daquilo que é hoje o sentido de cidadania expresso na nova lei do aborto? A medicina não é exclusiva dos médicos, mas sim um instrumento da sociedade para melhorar a sua qualidade de vida. Por isto, os Médicos Pela Escolha têm defendido a revisão do Código desde a alteração da lei do aborto e estão para isso a recolher assinaturas entre os profissionais de saúde, para que o artigo 47º passe a estar de acordo com a lei da república.

No 2º ponto, ficamos a conhecer as posições do Bastonário (leia-se Bastonário e não “todos os médicos”). Este começa por dizer que “se um dia o país aceitar a eutanásia, a ordem não poderá punir um médico por matar um doente”. Muito nos espanta o desconhecimento sobre os procedimentos da Eutanásia de Pedro Nunes, pois só uma profunda ignorância sobre o que está em causa pode justificar que o Bastonário ache que eutanásia é um médico poder matar alguém. Depois este afirma que “se forem disponibilizados aos doentes todos os apoios em termos de cuidados paliativos, a dor deixa de existir”. Infelizmente Pedro Nunes ainda não percebeu que a dor não é só um fenómeno físico e que há sofrimentos que não são solúveis com medicação. Também ainda não percebeu que a discussão em torno da Eutanásia, é mais um debate social sobre o direito à escolha livre, consentida e informada e não um debate entre médicos sobre princípios éticos. Aliás, princípios éticos cuja decisão de os inscrever num Código Deontológico está restrita a apenas um pequeno grupo de uma dúzia e não é resultado de um debate profundo que atravesse toda a classe médica.

notícia retirada do Expresso (22-03-08)